
Entre o que fomos e o que agora estamos nos tornando, há um livro e dentro dele historias de Historia e de historias. Entre tantos contos o que mais fala de saudade é quando o hospede vai embora deixando uma vaga na hospedaria. Milhares se vão todo dia e quando o hospede é um dos meus, velo-me também. Velo os pensamentos. As crenças e encontro todo tipo de ilusões. Velo também o meu corpo, hora tão maravilhoso frente àquele ali já inerte. Serve-me pra lembrar os obrigados não pronunciados. Velo o meu bolso. O dele está mais vazio. Velo outra vez os pensamentos e encontro outros bolsos cheios de méritos. Os próprios méritos que só aparecem nessas horas! E que se diga rapidamente não servem mais pra quase nada a não ser pra alimentar as culpas ou pra velar os caminhos da hospedaria às vezes sob penumbras. Sempre guardamos essas moedas num cofrinho que será nosso passaporte ao país longínquo. E enquanto penso nos pensamentos que estão passando olho às velas em fase terminal e me dou conta do que disse Ruben Alves: “A cera que resta é muito menos que a cera que já se queimou”. E aí meus pensamentos me mostraram quanta cera ainda me resta nessa viagem que tem dois cais. Um é o da partida e o outro o da chegada. Vamos nos concentrar no cais do porto da chegada e comemorar o nascimento espiritual de um dos representantes da hospedaria. Fica uma dor de parto dentro de nós, ainda mais quando nos conscientizamos que estamos a caminho do cais da partida. Mas há festa no cais da chegada onde nossos antepassados cantão as boas vindas enquanto no outro porto, dançamos a valsa da despedida no compasso, no ritmo e com postura de um bom dançarino que confia no grande coreógrafo
O impressionante é que os cais estão sempre lotados à noite. Será que é porque desejamos acorrentar o tempo que anseia em despertar e mostrar suas decisões? Parece que os mortos com seus mistérios não se dão com a claridade e as horas desoladas dos velórios se penduram nas ombreiras da fé onde também se encontram os vampiros da culpa sugando as horas penduradas.
Quando eu deixar a hospedaria, gostaria de viajar nua como quando cheguei ao cais de cá. Apenas banhada pelas águas que me esforcei pra economizar... Pela brisa que um dia armazenei da serra da Meruoca no Ceara e pelo sol que tomo todas as manhas enquanto agou minhas plantas, mas como não posso, já separei minha segunda vestimenta pra encobrir no corpo o que não tem mais sentido e descobrir o sentido do que tem alem desse efêmero corpo. Gostaria também de receber o aviso prévio pra fazer as malas com mais sois, mais luares, incenso de hunos, gotas de orvalho, pingos de chuva e
arcos-iris...assim irei sem medo e sem solidão, deixando apenas um bilhetinho: cuidem das minhas plantas, da minha cachorrinha. Já o meu filho, este precisa é se cuidar.
Deixarei para ele um testamento de palavras faladas em nossas conversas e palavras escritas que não servem como futuro garantido, mas como instrumento pra que meus descendentes conheçam meus pensamentos. O que mais tenho para eles? Será pouco?
Hoje, em enquanto meu irmão Edilberto Pontes, chega ao cais pra iniciar uma nova aventura sempre em busca da felicidade prometida, me apego e vagueio por estes pensamentos e a esta literatura ( ela que foi sua companheira) como o melhor recurso para de lenço branco na mão acenar em sua direção com um sorriso abençoador e um ate breve no cais.