
Os castelos me deixam espaçosa. Já visitei um e não entendi porque saí tão silenciosa e respirando pequeno. São tantos corredores. Tantos jardins. Salões e mais salões sempre vazios. Mesa de refeições de um kilômetro e meio tão cheia de louças que a comida devia ser apenas um detalhe. Lembrei que os nobres de sangue azul devem comer pouco. Vai ver seu sangue de tão especial já aprendeu absorver energia solar. É nesta parte do palácio que mais me calo, digo, me engasgo e mais que de pressa saio disfarçando um enjoou na barriga inexplicável. Acho que senti muita fome naquele momento! E a visita continua hora subindo escadarias, hora de trenzinho e essa excursão só permitia conhecer a primeira parte do castelo. Pra ver a segunda tinha que voltar no outro dia e depois no outro para a terceira parte, assim como também pagar todas elas. Os quartos... As camas... As colchas e almofadas... Deu vontade de me jogar em cima e ficar pulando como numa cama elástica! Mas era só pra vê-las desarrumadas bagunçadas e sujas, pois tenho a impressão que as crianças que ali viveram eram tristes e solitárias. Também eu tive uma infância silenciosa e incolor porque não tive com quem compartilhar as horas que estavam ali pra ser vividas e danei-me a pensar nas meninas e meninos lindos, vestidos de príncipes o dia todo.
Refugiei-me nas obras de arte pra aliviar meu espírito, ora cansado, ora rebelde ou talvez despeitado??? Essa raiva não é inveja???
Tem mais obra de arte do que parede!!! Alias tudo o é. As escadas. O escorrimão. As portas folhadas a ouro. As mobílias barrocas. Os mosaicos franceses. Os tetos angelicais. As pilastras gregas. O telhado. Os jardins e seus chafarizes, caramanchões. As piscinas e piscinas que guardei em minhas memórias para quando o planeta secar. Impresiona-me também que o rei e a rainha sempre têm dificuldades de ter filhos! Quando muito dois ou três já notaram? Então pra povoar os castelos tem criar mesmo é muitos criados. Pagéns. Serviçais ou escravos???
Não pude deixar de lembrar de gente pobre no seu barraco cheio de menino comendo barro de tanta anemia, nus, se arrastando no chão de barro batido!
Um estava ali em minhas imaginações vestido de PRINCIPE. O outro em minhas certezas vestidos de NADA e morrendo da doença chamada FOME.
Um vive na Alemanha. O outro na Etiópia, mas ambos são TERRAQUEOS! Ambos sonham. E seus sonhos são ambos de areia.

fortaleza/ 05/2009



