segunda-feira, 18 de maio de 2009

castelo todos sao de areia



Os castelos me deixam espaçosa. Já visitei um e não entendi porque saí tão silenciosa e respirando pequeno. São tantos corredores. Tantos jardins. Salões e mais salões sempre vazios. Mesa de refeições de um kilômetro e meio tão cheia de louças que a comida devia ser apenas um detalhe. Lembrei que os nobres de sangue azul devem comer pouco. Vai ver seu sangue de tão especial já aprendeu absorver energia solar. É nesta parte do palácio que mais me calo, digo, me engasgo e mais que de pressa saio disfarçando um enjoou na barriga inexplicável. Acho que senti muita fome naquele momento! E a visita continua hora subindo escadarias, hora de trenzinho e essa excursão só permitia conhecer a primeira parte do castelo. Pra ver a segunda tinha que voltar no outro dia e depois no outro para a terceira parte, assim como também pagar todas elas. Os quartos... As camas... As colchas e almofadas... Deu vontade de me jogar em cima e ficar pulando como numa cama elástica! Mas era só pra vê-las desarrumadas bagunçadas e sujas, pois tenho a impressão que as crianças que ali viveram eram tristes e solitárias. Também eu tive uma infância silenciosa e incolor porque não tive com quem compartilhar as horas que estavam ali pra ser vividas e danei-me a pensar nas meninas e meninos lindos, vestidos de príncipes o dia todo.
Refugiei-me nas obras de arte pra aliviar meu espírito, ora cansado, ora rebelde ou talvez despeitado??? Essa raiva não é inveja???
Tem mais obra de arte do que parede!!! Alias tudo o é. As escadas. O escorrimão. As portas folhadas a ouro. As mobílias barrocas. Os mosaicos franceses. Os tetos angelicais. As pilastras gregas. O telhado. Os jardins e seus chafarizes, caramanchões. As piscinas e piscinas que guardei em minhas memórias para quando o planeta secar. Impresiona-me também que o rei e a rainha sempre têm dificuldades de ter filhos! Quando muito dois ou três já notaram? Então pra povoar os castelos tem criar mesmo é muitos criados. Pagéns. Serviçais ou escravos???
Não pude deixar de lembrar de gente pobre no seu barraco cheio de menino comendo barro de tanta anemia, nus, se arrastando no chão de barro batido!
Um estava ali em minhas imaginações vestido de PRINCIPE. O outro em minhas certezas vestidos de NADA e morrendo da doença chamada FOME.
Um vive na Alemanha. O outro na Etiópia, mas ambos são TERRAQUEOS! Ambos sonham. E seus sonhos são ambos de areia.




fortaleza/ 05/2009

domingo, 10 de maio de 2009

Quando




Quando escuto música
É quando viajo

Quando danço
É quando me acho

Quando escrevo
É quando rezo
E brinco de ser
Viviane Mosé

Quando leio
É do amor que me aposso
É de tesão que me tomo e
Que ilumina até minha sombra

EscrevendoTenho refúgio
Tenho álibe
E um hábito
Nem tão antigo
Nem tão certo
Nem tão sábio
Mas sempre sóbrio
Sempre eu
Sempre, sempre




Fortaleza/2005

sábado, 2 de maio de 2009

Ervas daninhas


Quando estou só
É só quando
Me sinto
Me vejo
E proponho algo que
Me ajude
A ser
A merecer
E crescer
Quando sinto medo
Fico escondida de mim
Distancio-me
E perco-me no labirinto
Tenho vivido entre
Verdes prados
E ervas daninhas
Entre eu e a saudade de mim
Mas a saudade
Já não é mais a mesma
Muito menos as ervas daninhas
Só o verde prado
Da relva verdejante
Onde minh’alma repousa
Inebriada
Entorpecida
Ébria
De tanto caminhar
Quando a noite é fria
Releio meus escritos
Consulto os sábios
Procuro um amigo
E não o encontro com esse meu jeito
Solitário de ser
Na noite escura aproveito
Para me tomar de silêncio
Banhar-me de lama
Fazer uma poesia
E procurar um jeito novo
De ver
De fazer
De dizer
De colher
E então NASCER desse
Barulhento silêncio
Banhada pelas águas
profundas
Do SER

NO CAIS


Entre o que fomos e o que agora estamos nos tornando, há um livro e dentro dele historias de Historia e de historias. Entre tantos contos o que mais fala de saudade é quando o hospede vai embora deixando uma vaga na hospedaria. Milhares se vão todo dia e quando o hospede é um dos meus, velo-me também. Velo os pensamentos. As crenças e encontro todo tipo de ilusões. Velo também o meu corpo, hora tão maravilhoso frente àquele ali já inerte. Serve-me pra lembrar os obrigados não pronunciados. Velo o meu bolso. O dele está mais vazio. Velo outra vez os pensamentos e encontro outros bolsos cheios de méritos. Os próprios méritos que só aparecem nessas horas! E que se diga rapidamente não servem mais pra quase nada a não ser pra alimentar as culpas ou pra velar os caminhos da hospedaria às vezes sob penumbras. Sempre guardamos essas moedas num cofrinho que será nosso passaporte ao país longínquo. E enquanto penso nos pensamentos que estão passando olho às velas em fase terminal e me dou conta do que disse Ruben Alves: “A cera que resta é muito menos que a cera que já se queimou”. E aí meus pensamentos me mostraram quanta cera ainda me resta nessa viagem que tem dois cais. Um é o da partida e o outro o da chegada. Vamos nos concentrar no cais do porto da chegada e comemorar o nascimento espiritual de um dos representantes da hospedaria. Fica uma dor de parto dentro de nós, ainda mais quando nos conscientizamos que estamos a caminho do cais da partida. Mas há festa no cais da chegada onde nossos antepassados cantão as boas vindas enquanto no outro porto, dançamos a valsa da despedida no compasso, no ritmo e com postura de um bom dançarino que confia no grande coreógrafo
O impressionante é que os cais estão sempre lotados à noite. Será que é porque desejamos acorrentar o tempo que anseia em despertar e mostrar suas decisões? Parece que os mortos com seus mistérios não se dão com a claridade e as horas desoladas dos velórios se penduram nas ombreiras da fé onde também se encontram os vampiros da culpa sugando as horas penduradas.
Quando eu deixar a hospedaria, gostaria de viajar nua como quando cheguei ao cais de cá. Apenas banhada pelas águas que me esforcei pra economizar... Pela brisa que um dia armazenei da serra da Meruoca no Ceara e pelo sol que tomo todas as manhas enquanto agou minhas plantas, mas como não posso, já separei minha segunda vestimenta pra encobrir no corpo o que não tem mais sentido e descobrir o sentido do que tem alem desse efêmero corpo. Gostaria também de receber o aviso prévio pra fazer as malas com mais sois, mais luares, incenso de hunos, gotas de orvalho, pingos de chuva e
arcos-iris...assim irei sem medo e sem solidão, deixando apenas um bilhetinho: cuidem das minhas plantas, da minha cachorrinha. Já o meu filho, este precisa é se cuidar.
Deixarei para ele um testamento de palavras faladas em nossas conversas e palavras escritas que não servem como futuro garantido, mas como instrumento pra que meus descendentes conheçam meus pensamentos. O que mais tenho para eles? Será pouco?
Hoje, em enquanto meu irmão Edilberto Pontes, chega ao cais pra iniciar uma nova aventura sempre em busca da felicidade prometida, me apego e vagueio por estes pensamentos e a esta literatura ( ela que foi sua companheira) como o melhor recurso para de lenço branco na mão acenar em sua direção com um sorriso abençoador e um ate breve no cais.